Me admira cada dia mais a capacidade que muitas pessoas tem de interpretar papéis diferentes, literalmente personagens diferentes, nos diversos ambientes que estas pessoas freqüentam. Um bom exemplo disto, e do qual muitos se orgulham, é afirmar que se deve separar a vida profissional da vida familiar. Até entendo que alguém não queira jogar suas responsabilidades profissionais no seio familiar, mas chegar ao ponto de cultivar atitudes contraditórias nestes meios não denota integridade, nem sinceridade, nem honestidade.
Nas minhas leituras encontrei um autor que soube colocar perfeitamente em palavras estas minhas ideias. Se você busca se aprimorar como pessoa, como líder, como companheiro, enfim, se faz parte dos seus princípios questionar o que é ou não ético, recomendo a leitura do livro Qual É A Tua Obra, escrito pelo Mario Sergio Cortella. É um livro pequeno, mas que encerra pérolas de sabedoria. Deveria ser leitura obrigatória nas escolas. Compartilho abaixo um trecho do livro:
Uma pessoa inteira
Integridade é o princípio ético para não apequenar a vida, que já é curta.
Benjamin Disraeli, grande primeiro-ministro do Reino Unido durante o reinado da Rainha Vitória, proferiu uma frase de que gosto muito: “A vida é muito curta para ser pequena.”
Integridade é o princípio ético para não apequenar a vida, que já é curta. Integridade é a capacidade de saber que “eu morro louco, mas ninguém arranca a minha inteireza”. Integridade é honestidade, é sinceridade. Há pessoas que falam: “Mas isso no nosso país? Só um otário é honesto, íntegro e sincero”. Essa é uma escolha.
Você obtém um pouco de sossego mental quando aquilo que você quer é também o que você deve e é aquilo que você pode. Quanto mais claros os princípios, mais fácil fica lidar com os dilemas. Você não deixa de ter dilemas, mas é preciso ter como razão central a integridade. O que é uma pessoa íntegra? É uma pessoa correta, justa, honesta, que não se desvia do caminho. É uma pessoa que não tem duas caras. Qual a grande virtude que uma pessoa íntegra tem? Ela é sincera.
De onde vem a palavra sinceridade? Ela tem várias acepções, porém a mais recente tem a ver com a marcenaria. No século XIX, quando o marceneiro, ao trabalhar com aqueles móveis chamados coloniais, errava com o formão, ele pegava cera de abelha e passava naquele lugar para disfarçar o erro. Sine cera significa “sem cera”, uma pessoa sincera é aquela que não disfarça o erro, ela assume. Em vez de fazer de novo, ele finge que está certo passando cera de abelha. É igual a certas pessoas que, quando vão mudar de casa, pegam pasta de dente e colocam em todos os furos de quadro para fazer maquiagem.
Ética não é cosmética. Ética é sinceridade. Sabe de onde vem a expressão original “sincera”? No latim sine sera, sem cera, vem da criação de abelhas. Qual é o mel puro, o da geleia real? É o mel sem cera. A noção de pureza está aí.
Mas ela vem do teatro também. O mundo romano herdou parte dos princípios do teatro grego. No teatro grego, da Antiguidade Clássica, de 2500 anos atrás, havia uma situação muito interessante: todas as vezes que uma peça seria representada, os atores eram sempre homens, não havia espaço para as mulheres. Para que um ator pudesse fazer vários tipos de papéis, inclusive os femininos, eles construíam uma máscara feita de argila que seguravam na frente do rosto com uma varetinha. Que nome os latinos deram a essa máscara dos gregos? Persona. Daí vieram “personagem” ou “personalidade”.
Aliás, tem gente que usa várias dessas máscaras. Deixa uma em casa, sai com outra. Se comporta no trabalho de um jeito e, em casa, de outro. Ele não admite, em casa, que a empregada doméstica se atrase um minuto, mas pouco se incomoda se ele mesmo atrasar. Ele acha que na empresa tem que ter mais participação das pessoas, quer participar das decisões de um determinado patamar da hierarquia para cima, mas não acha que deve haver democracia dali para baixo. “Inclusive esse povinho, se você não tomar cuidado, você dá a mão, eles querem o braço e depois arrancam tudo.” É aquele cara que está com uma persona vendo televisão e fala: “Mas que horror, que nojo essa novela, só prostituição”. Mas ele mesmo, no trabalho, dá uma “cantada” na secretária.
Os romanos herdaram do teatro grego essa ideia de homens representando todos os papéis, mas, em vez de construírem máscaras de argila adotaram outra técnica: eles pegavam cera de abelha, misturavam com pigmentos vegetais e faziam uma pasta, que era passada no rosto. É por isso que uma pessoa sincera é uma pessoa sem máscara, que não tem duas caras, é aquela que não fala uma coisa e pensa outra, é aquela que não diz uma coisa e age de outro modo. A sinceridade é, de fato, um dos elementos construtivos da integridade.
Uma das coisas que eu mais temo quando se tem um debate ético é a chamada adesão cínica. É quando o sujeito diz: “Nós temos de discutir ética, esse país só vai para a frente com ética”. Mas, ele mesmo, no dia a dia, comporta-se da seguinte maneira: “Isso é bobagem. O mundo é competitivo, a regra básica é cada um por si e Deus por todos. Cada um tem de se virar, senão a gente dança”. Esse tipo de adesão cínica é muito perigoso.
Eu prefiro o mentiroso ao cínico. Porque o mentiroso é alguém que você captura a mentira dele, mas o cínico finge o tempo todo. E esse é o tipo mais deletério, porque dá a impressão de que está aderindo e, como não está, enfraquece a corrente daqueles e daquelas que acham que a vida é muito curta para ser pequena.





Ele compara as touradas espanholas, recentemente proibidas no estado catalão, às farras de boi catarinenses, dois tipos de tortura bem semelhantes. E questiona a justificativa apontada por muitos para dar continuidade a estas atrocidades. É tradição. Um moralismo sem fundamentos concretos, que apenas induz a cegueira.

